François Marie Gabriel Delanne nasceu em Paris, no dia 23/3/1857, ano de lançamento de "O Livro dos Espíritos". Seu pai, Alexandre Delanne, muito amigo de Allan Kardec, era espírita e sua mãe, Marie Alexandrine Didelot, era médium e contribuiu na codificação do Espiritismo. Gabriel foi engenheiro e dedicou-se ao Espiritismo Científico, tendo buscado sua consolidação como uma Ciência estabelecida e complementar às demais. Fundou a União Espírita Francesa, a revista "O Espiritismo", além de ter publicado vários livros. Desencarnou no dia 15/2/1926, aos 69 anos.
Semana 310
Gentios - quando levar a Boa Nova para eles?
Sonia Hoffmann
Como registrado em O Evangelho segundo o Espiritismo, a partir dos relatos de Mateus, Jesus orienta seus doze apóstolos a não procurarem os gentios (estrangeiros ou não judeus) e não entrarem nas cidades dos samaritanos. Ele ainda salienta que a Boa Nova deve ser pregada junto a quem pertencia à casa de Israel, as ovelhas perdidas que não haviam aproveitado os ensinamentos para sua evolução moral, embora deles tivessem conhecimento desde o Antigo Testamento (Kardec, 2013).
Esta indicação de Jesus pode parecer contraditória, pois sua mensagem e exemplificações traziam a essência da universalidade, da inclusão e do compartilhamento em ações de fraternidade e solidariedade para com todos. Consequentemente, os esclarecimentos evangélicos não estavam direcionados somente para o povo judeu porque, se assim fosse, haveria privilégios e eleitos para o recebimento das reflexões necessárias ao despertamento e às mudanças atitudinais que caracterizam a transformação para o 'homem novo'.
A mensagem de Jesus se destinava e está presente para todas as humanidades. Sendo ele enviado por Deus e porque Deus é soberanamente justo e bom seria, portanto, totalmente ilógico que a libertação da ignorância de um espírito dependesse de ter nascido em uma determinada época, raça, local, gênero ou ter entrado em contato com revelação específica.
A Doutrina Espírita elucida que Deus acolhe a todos, independentemente e sem distinção de sua origem ou situação terrena, disponibilizando condições e oportunidades de evolução e acesso à Sua lei, mesmo porque as leis divinas estão inscritas na consciência de cada ser. Logo, mesmo que alguém não tenha acesso a escrituras, a literaturas explicativas ou instituições que instruam os ensinamentos libertadores, é possível o seu discernimento e aplicação do livre-arbítrio na escolha entre o bem e o mal, a justiça e a injustiça, através da sua conexão e alinhamento evolutivo com o progresso espiritual, seguindo os indicativos de sua consciência.
Assim, quando Jesus, naquele momento, pede aos apóstolos para não pregarem aos pagãos, ele não o faz por desprezar a conversão deles, mas porque sabia que os apóstolos ainda não apresentavam experiência e esclarecimentos suficientes para o desempenho de tarefa tão difícil como a de estimular mudanças morais em pessoas ainda tão endurecidas, descrentes e sem propósito de encontrar o sentido da vida. Estes povos não representavam terreno fértil para receber a sementeira do Evangelho, sua esterilidade não traria possibilidade de frutificação.
Por tal motivo, Jesus diz aos apóstolos para levarem aos judeus, em regiões predominantemente judaicas, a Boa Nova, pois eles já acreditavam em um Deus único (não sendo mais politeístas como os pagãos), aguardavam a chegada de um Messias (apesar de não aceitarem Jesus) e estavam preparados com os esclarecimentos contidos na Lei de Moisés e pelos Profetas para o recebimento dos ensinamentos de Jesus através dos apóstolos.
É importante a observação de que essa restrição deles não irem aos pagãos foi temporária. Jesus, após a crucificação, se apresenta aos 500 da Galileia, ou semeadores galileus, e orienta a irem e evangelizarem todas as gentes. O número de adeptos já havia aumentado, a mensagem vinha se consolidando e os apóstolos se encontravam mais preparados para o cumprimento da tarefa.
Jesus, neste aparecimento, os convoca, orientando: "Amai-vos sempre, eu vos peço. Seja o vosso sinal o amor. Só o amor liberta o homem. Por muito amardes, sereis perdoados, amados, felizes! "Amai a fonte, o solo, o animal, a vida em qualquer expressão, amai-vos uns aos outros... como eu vos tenho amado! "Eu vos convido a descer aos homens e amá-los para subirdes aos Céus, amados. Todo aquele que desce para ajudar, eleva-se ajudado pelo auxílio dispensado. "Por enquanto não sereis compreendidos nem amados... Ao contrário, sereis odiados e perseguidos. Vossos suores, lágrimas e sangue lavarão vossas culpas e prepararão vosso amanhã. "Sereis tidos por endemoninhados e loucos, ultrajados nos mais caros anseios e esperanças por minha causa. Lembrai-vos de mim. Recordai: Eu venci o mundo! Não podereis vencer no mundo das ilusões e dos triunfos entre os homens de paixões. "Vossos ideais, em nome do meu Nome, serão violados e confundidos, e vosso nome por amor ao meu, mil vezes pisoteado... Tende bom ânimo! "Tudo passa: menos o amor. "Na hora aziaga e nobre do testemunho, dizei: isto também passa. E alegrai-vos. Sois minhas ovelhas amadas e eu vos mando na direção dos lobos rapaces. "Ide, semeadores, e não temais! "Que medo podem fazer os que matam o corpo e nada mais conseguem, eles, que logo mais o perderão também? "Não vos enganeis! Porfiai, mesmo quando aparentemente tudo estiver contra vós, prossegui. Estarei convosco até o fim dos séculos. "Ignorados por todos, eu vos conhecerei; abandonados pela multidão, estarei convosco; perseguidos pelo mundo, e eu ao vosso lado. "E quando chegar o vosso momento de retornar, tomar-vos-ei em minhas mãos e vos direi baixinho: entrai na vida, vós que fostes fiéis até o fim, e alegrai-vos! "Agora, ide, pregai e vivei o amor. Eu me vou, mas ficarei convosco!" (Rodrigues, 2005, p.67-68).
Junto a todos estes galileus, soma-se a contribuição valiosa e significativa de Paulo para a propagação da mensagem cristã entre os gentios. De perseguidor de Jesus, ele converteu-se, desde o caminho para Damasco, a exímio e abnegado divulgador dos ensinamentos e da proposta evangélica.
Após ter passado por diversos episódios de confronto com valores pessoais, Saulo (posteriormente Paulo), encontra e aceita Jesus: "banhado em pranto, como nunca lhe acontecera na vida, fez, ali mesmo, sob o olhar assombrado dos companheiros e ao calor escaldante do meio-dia, a sua primeira profissão de fé. -- Senhor, que quereis que eu faça? Aquela alma resoluta, mesmo no transe de uma capitulação incondicional, humilhada e ferida em seus princípios mais
estimáveis, dava mostras de sua nobreza e lealdade. Encontrando a revelação maior, em face do amor que Jesus lhe demonstrava solícito, Saulo de Tarso não escolhe tarefas para servi-lo, na renovação de seus esforços de homem. Entregando-se-lhe de alma e corpo, como se fora ínfimo servo, interroga com humildade o que desejava o Mestre da sua cooperação. Foi aí que Jesus, contemplando-o mais amorosamente e dando-lhe a entender a necessidade de os homens se harmonizarem no trabalho comum da edificação de todos, no amor universal, em seu nome, esclareceu generosamente: -- Levanta-te, Saulo! Entra na cidade e lá te será dito o que te convém fazer!" (Emmanuel, 2018, p.121).
Jesus, na sua bondade e inteligência amorosa, encontra em Paulo um fiel discípulo e seu trabalho de ampliação geográfica e também qualitativa teve sua importância, pois Paulo havia sido um doutor da lei e, por tal razão, tinha conhecimento profundo das escrituras, associando-se sua oratória precisa e eloquente ao disseminar as palavras e ensinamentos que auxiliassem as pessoas a saírem da sua acomodação, inércia ou pensamentos desajustados e tomassem o rumo de profunda renovação espiritual.
Com tais atitudes e estratégias adotadas pelo Mestre nazareno, entende-se com nitidez o quanto a meditação e o (auto)conhecimento beneficiam a todos que desejam ser tarefeiros na seara de Jesus, pois é preciso ter real entendimento da importância não só do estudo teórico, mas da capacidade de percepção das necessidades, vulnerabilidades e potencialidades das pessoas com quem haverá interação. Isto demanda a pessoa ter consciência da sua habilidade, do quanto ainda precisa melhorar e percepção correta de quando levar em frente sua cooperação. O uso de uma linguagem clara, objetiva, elucidativa, no momento adequado e junto a alguém que verdadeiramente queira e aceite se modificar são recursos fundamentais para aproximação e diálogo com os gentios modernos.
A tarefa é grandiosa. Precisamos nos converter a convictos trabalhadores da seara do Mestre, nos instruindo e vivenciando com exemplos os nossos aprendizados, mesmo conhecedores de ainda apresentarmos defeitos em nossa escalada evolutiva vivida em um mundo de provas e expiações. Talvez, o gentio que ainda habita em nós precisa ser o primeiro a ser esclarecido. Então, quando
estivermos em condição e as pessoas estiverem receptivas, a possibilidade de propagação do Evangelho se potencializa.
Referências
EMMANUEL (Espírito). Paulo e Estevão. 45.ed. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. Rio de Janeiro: FEB, 2018. p.121
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 131.ed. Brasília (DF): FEB, 2013. Cap. XXIV.
RODRIGUES, Amélia. Semeadores galileus. In: RODRIGUES, Amélia. Luz do Mundo. Psicografia de Divaldo Pereira Franco. Salvador: Leal, 2005, p.67-68.