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ASSOCIAÇÃO DE EDUCAÇÃO E CULTURA ESPÍRITA

GABRIEL DELANNE

François Marie Gabriel Delanne nasceu em Paris, no dia 23/3/1857, ano de lançamento de "O Livro dos Espíritos". Seu pai, Alexandre Delanne, muito amigo de Allan Kardec, era espírita e sua mãe, Marie Alexandrine Didelot, era médium e contribuiu na codificação do Espiritismo. Gabriel foi engenheiro e dedicou-se ao Espiritismo Científico, tendo buscado sua consolidação como uma Ciência estabelecida e complementar às demais. Fundou a União Espírita Francesa, a revista "O Espiritismo", além de ter publicado vários livros. Desencarnou no dia 15/2/1926, aos 69 anos.

Semana 321


Até quando serviremos a Deus e a Mamon?


Edson Ramos de Siqueira


Ao procedermos, sob a ótica espiritual, uma análise geral e imparcial da Humanidade, nos veremos diante de um paradoxo atroz: cerca de 85% da população do mundo tem uma religião. Porém, conforme Allan Kardec, no capítulo 3 de sua obra O Evangelho segundo o Espiritismo, na Terra, como em qualquer planeta de provas e expiações, o mal predomina.

Conforme a edição 256 (2017) da Revista Pesquisa FAPESP, os fósseis mais antigos de nossa espécie (Homo sapiens) foram encontrados no Marrocos há cerca de 10 anos e apresentam a idade de 300.000 anos. Tanto tempo se passou desde nossa origem neste planeta e, sob o ponto de vista moral - em contraposição à evolução técnico-científica -, continuamos com muitos comportamentos primitivos, haja vista a intensa violência, em suas mais distintas formas que, insistentemente e infelizmente, continua presente no seio da Humanidade.

Onde foi que erramos? Será que a atual capacidade cognitiva dos seres humanos é ainda insuficiente para compreendermos que amar, em todas suas nuances, é infinitamente melhor do que odiar? Absolutamente, não é esta a questão; basta analisarmos a impressionante velocidade da evolução material, em face do incrível desenvolvimento da Ciência. O grau da inteligência humana é, há muito tempo, mais do que suficiente para que interiorizássemos verdadeiramente os valores morais. O grande erro da Humanidade está no foco que se dá ao processo educacional, com priorização da educação para a matéria, em detrimento daquela que transcende a matéria. Vivemos, há muitos milênios, mergulhados no oceano de águas geladas e turvas das ilusões materiais, ignorantes que estamos da existência do firmamento azul e iluminado da realidade espiritual, morada da verdadeira felicidade.  

Toda e qualquer transformação moral do espírito requer um método, e conforme Allan Kardec, “somente a Educação, mais do que a instrução, poderá transformar a Humanidade”. Essa máxima é confirmada pela maioria dos grandes Educadores da História, a partir de Jesus, que têm consciência de que a nossa missão precípua, reencarnados na Terra, é aprender a amar, pré-requisito fundamental para a evolução dos Espíritos iludidos pela matéria, certamente a causa principal da violência, das deficiências de empatia, compaixão, humildade, fraternidade, caridade etc. 

Para contribuir com nossa necessária reflexão sobre o trinômio Educação – Amor – Evolução, transcrevi, da obra “Comenius – a construção da pedagogia”, autoria de Sergio Carlos Covello, um texto do eminente Educador Jan Amos Comenius (1592 – 1670). Tendo como fonte esse mesmo livro, cabe salientar que, em 1956, a Conferência Internacional da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), realizada em Nova Delhi, deliberou a publicação das obras de Comenius e o considerou um dos primeiros propagadores das ideias que inspiraram a fundação da UNESCO. 

Eis o texto de Comenius:   

“Nosso primeiro desejo é que todos os homens sejam educados plenamente, em sua plena humanidade, não apenas um indivíduo, não alguns poucos, nem mesmo muitos, mas todos os homens, reunidos e individualmente, jovens e velhos, ricos e pobres, de nascimento elevado e humilde – numa palavra, qualquer um cujo destino é ter nascido ser humano; de forma que afinal toda a espécie humana seja educada, homens de todas as idades, todas as condições, de ambos os sexos e de todas as nações.

Nosso segundo desejo é que todo homem seja educado integralmente, formado corretamente, não num objeto particular ou em alguns objetos ou mesmo em muitos, mas em tudo o que aperfeiçoa a espécie humana, para que ele seja capaz de saber a verdade e não seja iludido pelo que é falso; para amar o bem e não ser seduzido pelo mal; para fazer o que deve ser feito e não permitir o que deve ser evitado; para falar sabiamente sobre tudo, com qualquer um, quando necessário, e não ser estúpido em nenhum assunto e finalmente para lidar com as coisas, com os homens e com Deus, em todos os sentidos, racionalmente e não precipitadamente e assim nunca se afastando da meta da felicidade.

E educado em todos os aspectos, não para pompa e exibição, mas para a verdade; quer dizer, para tornar os homens o mais possível a imagem de Deus, na qual foram criados: verdadeiramente racionais e sábios, verdadeiramente ativos e espirituais, verdadeiramente pios (piedosos) e santos e assim verdadeiramente felizes e abençoados tanto aqui, quanto na eternidade.

Em suma, para iluminar todos os homens com a verdadeira sabedoria, para ordenarem suas vidas com verdadeiros governos e para uni-los a Deus com verdadeira religião, de modo que ninguém se equivoque em sua missão neste mundo.” 

Após essas palavras tocantes, sugiro que reflitamos sobre o que significou para a Humanidade séculos de acessos aos conhecimentos espirituais superiores e, sobretudo, aos exemplos passados por tantos mestres do amor que já passaram e continuam conosco. É impressionante o poder da matéria ilusória sobre os seres humanos! 

Através da Educação integral aprenderemos, com o passar do tempo, que o verdadeiro poder é o poder do Amor, que é o próprio Deus. Se cada Espírito, encarnado ou desencarnado, é uma centelha do princípio inteligente universal, que também é Deus, significa que “somos deuses” em processo de evolução, conforme nos afirmou Jesus. Mas, até hoje, fração significativa dos cristãos não entendeu a mensagem do nosso Irmão maior. 

Sob a ótica espiritual, absorvemos excesso de dogmas religiosos com suas teorias vazias, e temos muita dificuldade de exercitar o amor nos ambientes de convivência humana, que são os laboratórios para a aprendizagem prática dos preceitos morais evangélicos.

O título do cap. 16 de O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, traz uma mensagem prática fundamental à nossa evolução: “Não se pode servir a Deus e a Mamon”. Significado simplificado: “Não se pode servir ao bem e ao mal”; ou, “não se pode servir ao amor e ao desamor”. Mas, essa ambiguidade é predominante: nos apresentamos à sociedade como anjos, mas agimos como espíritos das trevas. A definição disso é hipocrisia.

Procuremos compreender profundamente a realidade da vida do Espírito eterno que somos, evoluamos com mais rapidez, o amor vale a pena: é o caminho único para a verdadeira felicidade!